quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

An 7 Col. LEPSI IP/FE-USP 2009


Desafios na formação clínica de professores: entre o cuidado, o ensino e a transmissão


Sandra Francesca Conte de Almeida
Universidade Católica de Brasília


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RESUMO
A vida pessoal e a vida profissional do professor se imbricam mutuamente e determinam seus modos de ser e de estar na profissão. Ou, como afirma Nóvoa (2000, p.17), "é impossível separar o eu profissional do eu pessoal". Se considerarmos estas premissas como sendo verdadeiras e pertinentes, a formação de professores não pode estar centrada apenas nos aspectos técnicos, didáticos, instrumentais e racionais ligados ao exercício de um saber-fazer profissional. Ela demanda, ao contrário, ser orientada por um princípio ético capaz de sustentar o professor na incômoda posição daquele que exerce, conforme apontado por Freud (1925), um métier impossível.
Palavras-chave: formação, clínica, cuidado, ensino, transmissão.
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A vida pessoal e a vida profissional do professor se imbricam mutuamente e determinam seus modos de ser e de estar na profissão. Ou, como afirma Nóvoa (2000, p.17), "é impossível separar o eu profissional do eu pessoal". Se considerarmos estas premissas como sendo verdadeiras e pertinentes, a formação de professores não pode estar centrada apenas nos aspectos técnicos, didáticos, instrumentais e racionais ligados ao exercício de um saber-fazer profissional. Ela demanda, ao contrário, ser orientada por um princípio ético capaz de sustentar o professor na incômoda posição daquele que exerce, conforme apontado por Freud (1925), um métier impossível
A formação de professores exige, nesta perspectiva, que se considere o outro lado da questão, ou seja, o avesso da qualificação profissional focada no desenvolvimento de competências teórico-práticas, via de regra presentes na formação dos chamados "especialistas" da educação (notadamente orientadores educacionais, supervisores pedagógicos, psicólogos escolares, psicopedagogos) e também nos diversos cursos de "especialização" destinados à "capacitação" de professores do ensino fundamental e médio.
Neste sentido, os desafios que se apresentam ao cenário da formação de professores, dizem respeito, sobretudo, às dificuldades, resistências, impasses e condições relativos à implementação e à sustentação, no âmbito do processo formativo, de ações de cuidado, de ensino e de transmissão que, articuladas entre si, sejam capazes de colocar no centro do processo questões afeitas à subjetividade do professor, aos fenômenos inconscientes das relações transferenciais, aos conflitos oriundos dos processos grupais e a toda sorte de situação que toca, de forma inesperada e inusitada, o processo relacional do ensinar-aprender.
O desafio principal posto em discussão, aqui, refere-se, fundamentalmente, ao manejo de dispositivos de formação que levem em conta os limites e as possibilidades de ação/atuação de uma profissão cujo exercício faz apelo permanente à subjetividade do professor. A perspectiva de formação a que nos referimos é, nesta concepção, orientada por uma ética e não por uma técnica; é, ao mesmo tempo, pessoal e profissional, na medida em que essas dimensões se enlaçam mutuamente; e é, ainda, balizada pelo desejo e não pelo gozo, constituindo-se em um estilo singular e criativo de ensino e de transmissão no campo da formação de professores. Os dispositivos de formação passíveis de atender a essas finalidades são clínicos, no sentido do ethos do cuidado e do acolhimento, e se apóiam na compreensão de que o professor-sujeito se constitui, dinâmica e dialeticamente, como efeito de uma configuração subjetiva e de relações interpessoais e sociais tecidas ao longo de sua história de vida pessoal e de sua trajetória profissional.
Em trabalhos anteriores (Almeida, 2003; Marinho-Araújo, Almeida, 2005), procuramos esclarecer o sentido e o uso do termo clínico aplicado à formação de professores, notadamente no que concerne ao manejo dos dispositivos clínico-éticos no contexto da formação inicial e/ou continuada. Retomaremos, rapidamente, as bases dessa concepção, ampliando-a a partir de estudos e pesquisas dedicados à abordagem clínica, de inspiração psicanalítica, na formação de professores.
Baïetto e Gadeau (2002) definem as principais características do que nomeiam enquadre clínico, aplicado à formação inicial de monitores para o manejo de grupos de professores no contexto da análise das práticas educativas, em uma abordagem clínica. Para os autores, a principal função do enquadre clínico é a de favorecer a passagem entre duas maneiras de se referir à sua prática: uma, técnica, "douta", apoiada no conhecimento, a outra mais despojada do saber do "perito", do expert, na qual o sujeito se engaja de modo diferente na sua maneira de dizer e de escutar. Para melhor compreender essa passagem, ou mudança de posição discursiva dos sujeitos, comentaremos algumas características essenciais do enquadre clínico, apontadas pelos autores:
a) trata-se, primeiramente, de um dispositivo grupal, que requer que todos os membros do grupo se vejam uns aos outros na sala onde se reúnem e isto supõe, então, uma disposição em círculo. Supõe, também, que quando uma pessoa intervém, ela se dirija ao grupo e não a uma outra pessoa, em particular;
b) o grupo é considerado como "auto-teorizante", isto é, capaz de produzir uma "teoria" por si mesmo, à qual poderá vir a renunciar quando uma via mais fecunda se apresentar;
c) o dispositivo procura dar um estatuto próprio à fala, ou seja, considera o ato de fala como essencial, raro, apreciável, a ser protegido: o caráter confidencial é, aqui, importante e cada um deve se sentir assegurado de que aquilo que ele diz não será utilizado em outro lugar; as pessoas devem se sentir respeitadas tanto no que elas são quanto no que elas dizem. Isto implica em uma certa qualidade da escuta e, portanto, no trabalho ativo do monitor para reduzir a alteração da escuta, como, por exemplo, os apartes, as manifestações infra-verbais, etc;
d) o enquadre clínico se define, também, por uma posição particular do monitor: esta posição se caracteriza pela renúncia a tudo que poderia vir a favorecer a ocupação de uma posição de "modelo" (transmissão de seus próprios valores, seus próprios saberes). Neste sentido, essa posição se opõe à do formador, na perspectiva da formação tradicional. No entanto, em virtude de sua posição privilegiada, o monitor é investido imaginariamente pelos membros do grupo como sendo portador de um saber. Assim, é fundamental que essa posição imaginária, que em si mesma é necessária ao trabalho de elaboração grupal, não seja confirmada no real, pelo monitor. Dito de outro modo, o monitor não pode ocupar o lugar de Sujeito-suposto-saber, como poderia ocorrer no caso de um dispositivo clássico de formação.
A abordagem clínica, de orientação psicanalítica, aplicada à educação e à formação de professores, tal como defendida e praticada por alguns pesquisadores (Cifali, 1998, 2001; Imbert, 1992, 1996; Beillerot, Blanchard-Laville, Mosconi, 1996; Blanchard-Laville, Fablet, 2000, 2001; Blanchard-Laville, Chaussecourte, Hatchuel, Pechberty, 2005; Blanchard-Laville, 2007; Pechberty, 2005, 2007), alguns destes presentes neste Colóquio, como Claudine Blanchard-Laville e Bernard Perchberty, visa, como objetivo principal, a análise das práticas profissionais, considerando a premissa essencial da articulação entre o profissional e o pessoal. Nesta concepção, a dimensão profissional é compreendida como estando ancorada na dimensão pessoal e, esta, por sua vez, é percebida como sendo afetada pelas condições de realização e de operacionalização da dimensão profissional, em seus aspectos organizacionais, institucionais e sociais.
Trata-se, então, na análise das práticas profissionais aplicada ao ofício docente, por meio de dispositivos clínico-éticos de formação, da análise da práxis de um sujeito em situação profissional e não da prática de uma profissão, em geral. Enquanto prática de um sujeito, esta se reporta a um conjunto de situações, de eventos e de experiências ancoradas na dinâmica psíquica própria do sujeito, compreendendo o processo de interação social entre o sujeito e seu contexto, a leitura que o sujeito faz da situação, as decisões que ele toma e as percepções que tem sobre os efeitos e implicações das decisões por ele tomadas (Nadot, 2002).
Embora o enquadre seja clínico e a análise das práticas profissionais se reporte a um sujeito, em particular, no contexto de um grupo, é importante reafirmar que a finalidade desse dispositivo de formação não é terapêutica, na acepção clássica do termo, isto é, a direção visada não é a "cura" do professor, por meio da interpretação de sintomas e atos, mesmo que relacionados ao mal-estar docente. No entanto, o cuidado, o ensino e a transmissão são registros que permeiam o dispositivo e que se articulam por meio da relação indissociável entre a teoria psicanalítica e a sua aplicação, no campo das práticas profissionais. O objetivo principal deve ser o trabalho de reflexão e de pesquisa sobre as dimensões subjetivas, psicossociais, institucionais e relacionais que constituem a realidade material e psíquica na qual acontecem as práticas educativas, incluindo aí, obviamente, a dimensão inconsciente do professor-sujeito. Cabe lembrar, então, em relação ao dispositivo clínico, o perigo de duas situações que devem ser evitadas: de um lado, a tendência à interpretação "selvagem" e, de outro, a tendência às prescrições, as conhecidas "receitas" pedagógicas.
O enquadre clínico, tal como caracterizado anteriormente, aplicado à análise das práticas profissionais, no contexto da formação de professores, propicia a (re)construção, em contexto, da identidade profissional do professor e a ressignificação de suas práticas, por meio de dispositivos que contemplam a colocação, em ato, de processos intra-subjetivos e inter-subjetivos que atravessam o ofício docente. Ao mesmo tempo, permitem a elaboração reflexiva sobre os aspectos imprevisíveis e as zonas de sombra presentes em toda situação educativa, o estabelecimento de uma nova relação com o saber e com a alteridade e a criação de um estilo próprio, singular, marcado pelos traços de desejo do sujeito. Estes recursos, que exigem um trabalho pessoal a ser desenvolvido no coletivo, são difíceis, mas não são impossíveis de serem apropriados pelos professores e poderão ajudá-los a minimizar o impacto e os efeitos, pessoais e profissionais, do confronto com o real da educação, cujo cerne consiste na impossibilidade de um sucesso total do ato educativo.
Assim compreendido, o uso de dispositivos clínicos na formação de professores só faz sentido se focalizar a dimensão da subjetividade e o campo das relações interpessoais, presentes nas práticas docentes. Deste modo, expressões e registros psíquicos de diversas ordens, afeitos ao campo relacional e profissional, estarão no centro da análise e das intervenções, o que supõe a circulação de ações de cuidado, de ensino e de transmissão no interior do dispositivo, a cargo, sobretudo, de quem sustenta o processo: o mediador, o animador, o monitor, o pesquisador, o analista, o formador, conforme as diferentes designações (e sentidos) atribuídas àquele(a) que coordena a intervenção.
Se considerarmos, ainda, que o dispositivo clínico é grupal, que visa possibilitar a produção de uma teoria, a partir da reflexão sobre as práticas, que as análises, as reflexões e as confrontações, no âmbito do grupo, têm como instrumento privilegiado os atos de fala e a atitude clínica da escuta, que requer do animador uma posição clínica particular e uma relação específica com o saber, podemos deduzir, facilmente, os desafios e, mesmo, os impasses que uma proposta dessa natureza nos apresenta, no contexto da formação de professores, na realidade brasileira.
A pergunta que, na origem de nossa reflexão, mobilizou a produção desse texto, tem a ver com a formação – pessoal e profissional - daquele que se dispõe a coordenar, a animar e a mediar o enquadre clínico na formação de professores, por meio de dispositivos que privilegiam a atitude clínica, ou uma posição clínica particular, que compreende o fazer-falar o outro e a escuta sensível dessa fala, esse outro tomado na condição de sujeito em uma dada situação profissional. Essa questão nos remete, de imediato, ao campo da ética e do desejo, pois convoca o animador e os participantes do processo de formação a um encontro delicado, cujos efeitos subjetivos podem surpreender, posto que o inconsciente dos sujeitos, em relação, subverte a ordem, as aparências e as intenções estabelecidas, já que não se deixa capturar pelo controle da razão.
Pensar a formação do animador ou do mediador, na perspectiva da formação clínica, sobretudo de orientação psicanalítica, no campo das práticas docentes, leva-nos, necessariamente, a interrogar o campo da formação profissional dos "psi" e dos pedagogos e a articulação entre a psicanálise e a educação, enquanto saber e prática diferenciados. Ser psicólogo ou ser pedagogo credenciaria automaticamente o profissional a intervir no campo da formação de professores, na abordagem aqui definida e defendida? Desses profissionais, qual teria, em princípio, melhores condições e recursos, pessoais e profissionais, de sustentar um trabalho dessa natureza? Perguntas dessa ordem, obviamente, para além do mal-estar que provocam, têm origem em velhas polêmicas e antigas disputas e recriminações (algumas até com um certo fundamento teórico-epistemológico), que sempre alimentaram as relações entre o campo das práticas psicológicas e o das práticas pedagógicas. No que concerne especificamente à psicanálise, não é necessário lembrarmos, aqui, as discussões calorosas e as posições contrárias ou favoráveis às conexões entre a psicanálise e a educação, por parte de psicanalistas e educadores.
Parece evidente que o fato de ser psicólogo (clínico ou escolar) ou pedagogo não garante a implicação do desejo do sujeito na empreitada do projeto de formação e, muito menos, lhe assegura sustentar a posição discursiva e ética de um Outro barrado, capaz de manejar ações de cuidado, de ensino e de transmissão que venham a operar mudanças significativas nas relações do professor com o saber e com suas práticas educativas.
No entanto, parece óbvio, também, que se espera do profissional que seja atravessado, afetado, de um modo particular, pela psicanálise, e que tenha experiências suficientes no campo da educação para que consiga manejar, a partir de uma posição discursiva clínica, as diversas e diferentes situações subjetivas e profissionais que surgirão na esteira do dispositivo de formação.
A análise das práticas profissionais, sobretudo na perspectiva da formação clínica, de inspiração psicanalítica, se revela, portanto, bastante complexa: pressupõe o acolhimento de diversas demandas e motivações; exige a elucidação de significações e sentidos dos diferentes contextos e problemas que se apresentam; coloca em evidência que o ofício de professor, principalmente por se ocupar da infância e da adolescência e ser de natureza relacional, põe em jogo as dimensões afetivas, conscientes e inconscientes, dos sujeitos em relação; mobiliza a rememoração e narrativas de situações difíceis e conflitivas, a auto-confrontação e a confrontação de diferentes pontos de vista, entre pares, e seus remanejamentos, suscita ou reativa tensões, ansiedades, conflitos, rivalidades, fantasmas de reparação, de culpabilidade, de "acerto de contas", mobilizando angústia, defesas psíquicas, movimentos transferenciais e contratransferenciais, inconscientes, do professor-sujeito.
O enquadre clínico de formação, nesta perspectiva, por se constituir em um espaço psíquico privilegiado de fala e de escuta de sujeitos em situação profissional, exige do animador do dispositivo uma postura particular, uma posição discursiva analítica, mesmo que sua formação inicial não tenha origem no campo "psi".
Já temos elementos suficientes para avançar a hipótese de que aquele que se autoriza a coordenar, a animar, a dar suporte à formação de professores, na perspectiva clínica, notadamente de filiação psicanalítica, terá melhores condições e recursos subjetivos de exercer essa função, se apoiado em um desejo "decantado" pela experiência pessoal de análise, ou seja, pela psicanálise em intensão, retomando o neologismo empregado por Lacan (1975) ao se referir à transmissão da psicanálise na formação do analista.
Os desafios que se nos apresentam, então, no campo formativo, na abordagem aqui apresentada, nos convocam, psicanalistas, sobretudo, psicólogos, pedagogos e outros profissionais das ciências humanas e do campo educacional, à responsabilidade de assumir um compromisso ético com a formação profissional dos professores, de modo a garantir, minimamente, que as dimensões do cuidado, do ensino e da transmissão sejam preservadas no interior do dispositivo. O desejo e a ética a que nos referimos, atravessados pela experiência da análise pessoal, na formação do analista, apontam para a verdade subjetiva do sujeito, revelando o seu estilo singular e também "os modos pelos quais, intra e intersubjetivamente, regula a tensão entre prazer e gozo, fantasia e realidade, pulsão e desejo, ou seja, dá testemunho de como obtura a falta no Outro" (Almeida, 2006, p. 15). Se o estilo, em Lacan (1966), tem a ver com o inconsciente enquanto discurso do Outro e com o objeto a, objeto causa do desejo, será o estilo do sujeito, enquanto efeito da experiência de análise, efeito, portanto, do ensino e da transmissão da psicanálise e de sua ética, que o credenciará a ocupar um lugar privilegiado no dispositivo clínico de formação de professores.

Referências Bibliográficas
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IMBERT, F. Vers une clinique du pédagogique. Paris: Matrice, 1992.
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Resenha

Hiperatividade: o "não-decidido" da estrutura ou o "infantil" ainda no tempo da infância

Almeida, S.F.C. Doutora em Ciências da Educação (Psicologia) e diplomada em Psicologia Escolar pela Université René Descartes, Paris V, Sorbone. Psicanalista. Membro Fundador de Percurso Psicanalítico de Brasília. Tem vários livros publicados

Obra resenhada por Leide

O texto traz a tona um dos problemas mais vexatório em nossos dias, a hiperatividade. A autora coloca que atualmente existe um aumento expressivo do diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDA/H), nos contextos de escolarização tendo em vista um discurso normativo e nostálgico, onde a autoridade paterna e os limites não são mais claramente definidos. Por sua vez, o discurso médico contemporâneo, também advindo da psiquiatria biológica, se prende às noções de déficit, incapacidade, insuficiência e atém-se às disfunções da atenção, motricidade e aos problemas da esfera relacional para diagnosticar o TDA/H.
Menciona que no DSM IV as disfunções da criança, tem as mesmas disfunções descritas no TDA/H em diferentes estruturas clínicas e posições subjetivas, como na psicose, autismo ou na debilidade intelectual. Essa lógica diagnóstica, enfatiza a função/disfunção, ignorando o sujeito, podendo dessa forma, diagnosticar a agitação psicomotora de uma criança psicótica como sendo transtorno de hiperatividade.
Em seu artigo, a autora escreve que há adesão maciça da prática médica à lógica curativa e, se respalda na concepção de que haveria efeitos benéficos da terapêutica medicamentosa para os portadores de TDA/H, uma vez que estes se sentiriam mais calmos e com maior autocontrole. Porém, há posição contrária a esta argumentação, alguns autores fazem sérias críticas a essa prática, destacando que a prevalência da postura terapêutica poderia encobrir problemas de ordem emocional do sujeito ou problemas ocasionados por situações sociais adversas (Graeff, 1989).
Tendo como parâmetro a psicanálise, o caminho mais prudente a adotar se pauta no entendimento de que a ordem simbólica, na qual os discursos sociais se inscrevem, cria possibilidades para o funcionamento de certas regularidades psíquicas e não de outras. A análise da relação sujeito/cultura permite uma reflexão acerca da problemática do TDA/H, na qual são consideradas as dimensões do sujeito e do social.
Segundo a autora, do ponto de vista da psicanálise, as funções psicológicas - inteligência, percepção, fala e motricidade, dentre outras - articulam-se entre si e são efeitos da configuração subjetiva do sujeito que, por sua vez, se constitui a partir dos significantes do Outro. A avaliação diagnóstica ancorada na teoria psicanalítica deve se ater à noção de estrutura, como se dá a inscrição do sujeito no discurso, tendo em vista que esses dois eixos implicam a subjetividade do analista em sua escuta e não possibilitam certezas, apenas hipóteses de trabalho
Na realidade as crianças com o diagnóstico médico de TDA/H aponta para uma organização estrutural indefinida, que esbarra nas delimitações das estruturas clínicas - neurose, psicose, perversão - sinalizando para uma posição subjetiva que está na borda, no limite das referidas estruturas. As manifestações sintomáticas do TDAH aponta para os efeitos do infantil, ainda não esquecido, não ainda recalcado.
A diferença que se faz presente nessas crianças aponta para uma indefinição do tipo de negativa essencial ao funcionamento psíquico. Neste caso, o não-decidido se manifesta pela ausência do não que não foi incorporado pela criança para coibir o desejo do Outro. Um não que seria capaz de lhe possibilitar uma organização psíquica outra e uma significação mais efetiva de si mesma e do mundo, a partir do referente simbólico.
Para explicitar seu artigo a autora busca na fala de Rassial (2000, 1997a, 1997b, 1995) que postula que não se pode falar em estado-limite na infância, por ser este, sobretudo, o resultado de uma operação a ser feita no tempo da adolescência. Não obstante, pode-se supor e acompanhar os investimentos narcísicos nas operações lógicas constitutivas da imagem do corpo e do pensamento que precederam essa fase e articulá-los às vicissitudes e dificuldades localizadas nas duas operações de constituição do eu: na formação do eu-ideal, na qual a função materna teria um papel relevante, e na instância do ideal-do-eu, resultante da Lei paterna.
A autora coloca que a problemática do TDA/H pode ser pensada como uma manifestação do infantil ainda no tempo de infância e que, ao se mostrar durante o processo de escolarização, é facilmente capturada pelo discurso e diagnóstico médicos face aos inúmeros encaminhamentos que o sistema escolar faz, na atualidade, ao se deparar com as "difíceis" crianças avaliadas como turbulentas e desatentas.
Em fim, para ilustrar o artigo e levar o leitor a uma reflexão mais profunda, a autora relatou em fragmentos clínicos um estudo de caso de uma criança diagnosticada como "portadora" de TDA/H. na rede pública do DF, sem levar em conta a subjetividade e que, o acesso a essa posição subjetiva possibilitaria à criança, na idade escolar, engajar-se na socialização e organizar o pensamento e as aprendizagens. Todavia, essa operação psíquica implica em uma divisão, a qual fará com que, a criança lide com constantes autocensuras e culpa em virtude das contradições impostas ao eu pelo desejo inconsciente agora esquecido.
Apreciação Crítica.
Dentro de contexto escolar, acontece com freqüência a queixa de professor com a fala “não aguento mais aquele garoto.... se a mãe dele não vier conversar comigo ele não entra na minha sala... ele é hiperativo e a mãe não procura um tratamento”. O TDAH é com freqüência apresentado do ponto de vista “meu” na sua grande maioria erroneamente, como um tipo específico de problema de aprendizagem e não é. Crianças com TDAH não são incapazes de aprender, mas têm dificuldade na escola por causa da falta de organização, de atenção e da impulsividade, Diante desses sintomas, a criança é levada a equipe denominada de multidisciplinar ( pedagogo, psicopedagogo, orientadora educacional e psicólogo) para fazer uma avaliação e posterior, ser encaminhada para um neurologista e conseqüentemente, ser medicada sem passar por uma escuta clínica, não respeitando sua subjetividade. É preciso que esse diagnóstico seja de fato, feito com mais cuidado e de preferência, após a criança passar um período em tratamento terapêutico.
A autora faz uma crítica veemente a prática desse discurso do diagnostico ao TDAH sem analisar os efeitos das relações sujeito/família, sujeito/escola, sujeito social e cultural na posição subjetiva da criança.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

INCONSCIENTE

Sigmund Freud foi um intelectual que aliava a parte teórica à prática. Escritor compulsivo e extremamente produtivo, foi colocando suas teorias num estilo próprio e característico, em estilo científico, mas sem exagerar nas citações a outros pensadores e cientistas.
FREUD, Sigmund. Obras Completas Psicológicas de Sigmund Freud. Edição
Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980.


Obra resenhada por Leide

Podemos afirmar, da existência de um estado psíquico inconsciente, quando em um dado momento qualquer, o conteúdo da consciência é muito pequeno, de modo que a maior parte do que chamamos conhecimento consciente deve permanecer, por consideráveis períodos de tempo, num estado de latência, isto é, deve estar psiquicamente inconsciente. Quando todas as nossas lembranças latentes são levadas em consideração, fica totalmente incompreensível que a existência do inconsciente possa ser negada.
A resposta óbvia a isso é a de que uma lembrança latente é, pelo contrário, um resíduo inquestionável de um processo psíquico.
O autor vem justificar o conceito de INCONSCIENTE como um direito de supor a existência de algo mental inconsciente, e de empregar tal suposição visando às finalidades do trabalho científico, que tem sido vastamente contestado. Para ele, responder que a suposição a respeito do inconsciente, é necessária e legítima, e que dispõe de numerosas provas de sua existência. Ele diz que é necessária porque os dados da consciência apresentam um número muito grande de lacunas; tanto nas pessoas sadias como nas doentes ocorrem com freqüência atos psíquicos que só podem ser explicados pela pressuposição de outros atos, para os quais, não obstante, a consciência não oferece qualquer prova. Na psicanálise, não tem outra opção senão afirmar que os processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelhar a percepção deles por meio da consciência
percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais.Assim o autor do artigo nos passa que: a repressão não visa a destruição da idéia que representa um instinto, mas evitar que se torne consciente; Enquanto inconsciente, pode produzir efeitos, até mesmo atingir a consciência; o reprimido não abrange tudo o que é inconsciente ; só tomamos conhecimento de algo inconsciente através da tradução para algo consciente e que o trabalho psicanalítico, que lida com as resistências
O inconsciente abrange, por um lado, atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes, e, por outro lado, abrange processos tais como os reprimidos, que, caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes.
As descobertas positivas da psicanálise, pode-se dizer que, em geral, um ato psíquico passa por duas fases quanto a seu estado, entre as quais se interpõe uma espécie de teste (censura). Na primeira fase, o ato psíquico é inconsciente e pertence ao sistema Ics; se, no teste, for rejeitado pela censura, não terá permissão para passar à segunda fase; diz-se então que foi ‘reprimido’, devendo permanecer inconsciente. Se, porém, passar por esse teste, entrará na segunda fase e, subseqüentemente, pertencerá ao segundo sistema, que chamaremos de sistema Cs. Em vista dessa capacidade de se tornar consciente, denomina o sistema Cs. de ‘pré-consciente’. Por ora o autor diz que se contenta em ter em mente que o sistema Pcs. participe das características do sistema Cs., e que a censura rigorosa exerca sua função no ponto de transição do Ics. para o Pcs. (ou Cs.)
Na topografia psíquica, no momento, nada tem que ver com a anatomia; refere-se não a localidades anatômicas, mas a regiões do mecanismo mental, onde quer que estejam situadas no corpo. A esse respeito, o autor coloca que seu trabalho fica desembaraçado, podendo prosseguir em função de suas próprias necessidades.Para tanto, ele vem lembrar que, no pé em que as coisasestão, as hipóteses nada mais exprimem do que ilustrações gráficas. A primeira das duas possibilidades que considera — isto é, que a fase Cs. de uma idéia acarreta um novo registroda idéia, situado em outro lugar —, é sem dúvida a mais grosseira, embora também mais conveniente. A segunda hipótese — a de uma mudança de estado meramente funcional — é àpriori mais provável, embora menos plástica, menos fácil de manipular. À primeira hipótese, a topográfica, está estreitamente vinculada a de uma separação topográfica dos sistemas Ics. e Cs. e também a possibilidade de que uma idéia possa existir simultaneamente em dois lugares no mecanismo mental — na realidade, a possibilidade de que, se não estiver inibida pela censura, ela avançará regularmente de uma posição para outra, sem perder talvez sua primeira localização ou registro.
Do ponto de vista do autor do artigo, um instinto nunca pode tornar-se objeto da consciência — só a idéia que o representa. Além disso, mesmo no inconsciente, um instinto não pode ser representado de outra forma a não ser por uma idéia. Se o instinto não se prendeu a uma idéia ou não se manifestou como um estado afetivo, nada se pode conhecer sobre ele. Não obstante, quando se fala de um impulso instintual inconsciente ou de um impulso instintual reprimido, a imprecisão da fraseologia é inofensiva. Pode apenas referir a um impulso instintual cuja representação ideacional é inconsciente, pois nada mais entra em consideração. Deve esperar que a resposta à questão dos SENTIMENTOS, EMOÇÕES E AFETOS INCONSCIENTES seja dada com igual facilidade. Por certo, faz parte da natureza de uma emoção que esteja cônscio dela, isto é, que ela se torne conhecida pela possibilidade do atributo da inconsciência seria completamente excluída no tocante às emoções,sentimentos e afetos.
Na prática psicanalítica, porém, está habituado a falar de amor, ódio, ira etc. inconscientes, e achar impossível evitar até mesmo a estranha conjunção ‘consciência inconsciente de culpa’, ou uma ‘ansiedade inconsciente’ paradoxal.
A importância do sistema Cs. (Pcs.) no que se refere ao acesso à liberação do afeto e à ação, permite-nos também compreender o papel desempenhado pelas idéias substitutivas na determinação da forma assumida pela doença. É possível ao desenvolvimento do afeto proceder
diretamente do sistema Ics.; nesse caso, o afeto sempre tem a natureza de ansiedade, pela qual
são trocados todos os afetos ‘reprimidos’. Com freqüência, contudo, o impulso instintual tem de
esperar até que encontre uma idéia substitutiva no sistema Cs. O desenvolvimento do afeto pode
então provir desse substituto consciente e a natureza desse substituto determina o caráter qualitativo do afeto.
Afirmamos que na repressão ocorre uma ruptura entre o afeto e a idéia à qual ele pertence, e que cada um deles então passa por vicissitudes isoladas. Descritivamente, isso é incontestável; na realidade, porém, o afeto, de modo geral, não se apresenta até que o irromper de uma nova apresentação no sistema Cs. tenha sido alcançado com êxito.

No que se refere a TOPOGRAFIA E DINÂMICA DA REPRESSÃO o autor chega à conclusão de que a repressão constitui essencialmente em fazer uma nova tentativa de descrever o processo com maiores detalhes. Segundo ele, deve tratar-se de uma retirada da catexia; mas a questão é: em que sistema ocorre a retirada e a que sistema pertence a catexia retirada? A idéia reprimida permanece capaz de agir no Ics., e deve, portanto, ter conservado sua catexia. O que foi retirado deve ter sido outra coisa. Tomemos o caso da repressão propriamente dita (‘pressão posterior’) quando afeta uma idéia pré-consciente ou mesmo consciente. Aqui, a repressão só pode consistir em retirar da idéia da catexia (pré) que pertence ao sistema Psc. A idéia portanto, ou permanece não catexizada, ou recebe a catexia do Ics., ou retém a catexia do Ics. que já possuía. Assim, há uma retirada da catexia pré-consciente, uma retenção de catexia inconsciente, ou uma substituição da catexia pré-inconsciente por uma inconsciente Mas esse processo de retirada da libido não é suficiente para tornar compreensível uma outra característica da repressão.
Na histeria da ansiedade, uma primeira fase do processo é comumente desprezada e talvez, de fato, passe despercebida; mediante detida observação, contudo, ela pode ser claramente discernida. Consiste no surgimento da ansiedade sem que o indivíduo saiba o que teme.— Na segunda fase da histeria de ansiedade, portanto, a anticatexia proveniente do sistema Cs. leva à formação do substituto. A cada aumento da excitação instintual, a muralha protetora em torno da idéia substitutiva deve ser deslocada um pouco mais para fora. À totalidade dessa construção, que é erigida de forma análoga nas demais neuroses, denominamos fobia. A fuga de uma catexia consciente da idéia substitutiva se manifesta nas evitações, nas renúncias e nas proibições, por meio das quais reconhecemos a histeria de ansiedade. Já na terceira fase repete o trabalho da segunda numa escala mais ampla. O sistema Cs. se defende agora da ativação da idéia substitutiva por meio de uma anticatexia do seu ambiente, da mesma maneira pela qual, anteriormente, se defendia da emergência da idéia reprimida por meio de uma catexia da idéia substitutiva. Desse modo, prossegue a formação de substitutos por deslocamento.
O ego comporta-se como se o perigo de um desenvolvimento da ansiedade o ameaçasse, não a partir da direção de um impulso instintual, mas da direção de uma percepção, tornando-se assim capaz de reagir contra esse perigo externo através das tentativas de fuga substitutiva na histeria de ansiedade. Dessa circunstância o autor conclui que a quantidade de energia despendida pelo sistema Cs.

Na repressão não precisa ser tão grande quanto a energia catexial do sintoma, pois a força da repressão é medida pela quantidade de anticatexia despendida, ao passo que o sintoma é sustentado não somente por essa anticatexia, como também pela catexia instintual oriunda do
sistema Ics. que se acha condensada no sintoma.
Quanto à neurose obsessiva, é preciso acrescentar é que a anticatexia proveniente do sistema Cs. se coloca da forma mais conspícua no primeiro plano. É isso que, organizado como uma formação de reação, provoca a primeira repressão, constituindo depois o ponto no qual a idéia reprimida irrompe. Dessa forma podemos aventurar a suposição de que é devido à predominância da anticatexia e à ausência de descarga que o trabalho de repressão parece muito menos bem-sucedido na histeria de ansiedade e na neurose obsessiva do que na histeria de conversão.
‘ Quanto as CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS DO SISTEMA Ics. Segundo o autor, a distinção que se estabelece entre os dois sistemas psíquicos ganha novo significado quando os processos em um dos sistemas, o Ics., apresenta características que
não encontra no sistema imediatamente acima dele. O núcleo do Ics. consiste em representantes instintuais que procuram descarregar sua catexia em impulsos carregados de desejo que são coordenados entre si, e se influenciam mutuamente, e estão isentos de contradição mútua. Quando dois impulsos carregados de desejo, cujas finalidades são incompatíveis, se tornam simultaneamente ativos, um dos impulsos não reduz ou cancela o outro, mas os dois se combinam para formar uma finalidade intermediária, um meio termo.
Os processos do sistema Ics. são intemporais; isto é, não são ordenados temporalmente, não se alteram com a passagem do tempo; não têm absolutamente qualquer referência ao tempo, a referência ao tempo vincula-se, mais uma vez, ao trabalho do sistema Cs. a intemporalidade e a substituição da realidade externa pela psíquica — tais são as características que podemos esperar encontrar nos processos pertencentes ao sistema Ics.
Quando um processo passa de uma idéia para outra, a primeira idéia conserva uma parte de sua catexia e apenas uma pequena parcela é submetida a deslocamento. Os deslocamentos e as condensações, tais como ocorrem no processo primário, são excluídos ou bastante restringidos. Essa circunstância levou Breuer a presumir a existência de dois estados diferentes de energia catexial na vida mental: um em que a energia se acha tonicamente ‘vinculada’ e outro no qual é livremente móvel e pressiona no sentido da descarga. Para o autor a distinção representa a compreensão interna (insight) mais profunda que se alcançou até agora a respeito da natureza da energia nervosa,

Segundo o autor, a COMUNICAÇÃO ENTRE OS DOIS SISTEMS, seria não obstante errôneo imaginar que o Ics. permanece em repouso enquanto todo o trabalho da mente é realizado pelo Pcs. Para ele, é o contrário, o Ics. permanece vivo e capaz de desenvolvimento,mantendo grande número de outras relações com o Pcs., entre as quais a da cooperação. Ele aponta que, deve-se dizer que o Ics. continua naquilo que conhecemos como derivados, que é acessível às impressões da vida, que influencia constantemente o Pcs., e que, por sua vez, está inclusive sujeito à influência do Pcs.
Para o autor deste artigo, o Ics. é rechaçado, na fronteira do Pcs., pela censura, mas os derivados do Ics. podem contornar essa censura, atingir um alto grau de organização e alcançar certa intensidade de catexia no Pcs. Quando, contudo, essa intensidade é ultrapassada e eles tentam forçar sua passagem para a consciência, são reconhecidos como derivados do Ics. e outra vez reprimidos na fronteira da censura, entre o Pcs. e o Cs. Assim, a primeira dessas censuras é exercida contra o próprio Ics., e a segunda, contra os seus derivados do Pcs. Poder-se-ia supor que no decorrer do desenvolvimento individual a censura deu um passo à frente. No tratamento psicanalítico fica provada, sem sombra de dúvida, a existência da segunda censura, localizada entre os sistemas Pcs. e Cs. Pedimos ao paciente que forme numerosos derivados do Ics., fazemos com que ele se comprometa a superar as objeções da censura a essas formações pré-conscientes que se tornam conscientes, e, pondo abaixo essa censura, desbravamos o caminho para ab-rogação da repressão realizada pela anterior. A isso acrescentemos que a existência da censura entre o Pcs e o Cs. nos ensina que o tornar-se consciente não constitui um mero ato de percepção, sendo provavelmente também uma hipercatexia, um avanço ulterior na organização psíquica.
Os sistemas se comunicam entre si mais extensivamente. Uma parcela dos processos que lá são excitados passa através do Ics. e atinge o desenvolvimento psíquico mais elevado no Cs.; outra parcela é retida como Ics. Mas o Ics. é também afetado por experiências oriundas da percepção externa. O conteúdo do sistema Pcs. (ou Cs.) deriva em parte da vida instintual (por intermédio doIcs.) e em parte da percepção.
O autor afirma que os processos desse sistema podem exercer influência direta sobre o Ics.; o exame de casos patológicos muitas vezes revela uma incrível independência e uma falta de suscetibilidade à influência por parte do Ics. Uma completa divergência de suas tendências, uma total separação dos dois sistemas, é o que acima de tudo caracteriza uma condição de doença. O tratamento psicanalítico se baseia numa influência do Ics. a partir da direção do Cs., e pelo menos demonstra que, embora se trate de uma tarefa laboriosa, não é impossível. Os derivados do Ics. que agem como intermediários entre os dois sistemas desvendam o caminho, conforme já dissemos para que isso se realize.
Contudo, pode presumir com segurança segundo o autor que uma alteração espontaneamente efetuada no Ics. a partir da direção do Cs. constitui um processo difícil e lento.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

PREFÁCIO A JUVENTUDE DESORIENTADA , DE AICHHORN

PREFÁCIO A JUVENTUDE DESORIENTADA , DE AICHHORN

Sigmund Freud foi um intelectual que aliava a parte teórica à prática. Escritor compulsivo e extremamente produtivo, foi colocando suas teorias num estilo próprio e característico, em estilo científico, mas sem exagerar nas citações a outros pensadores e cientistas.

S. Freud nasceu em 06 de maio de 1856 na Checoslováquia, de origem judaica. Aos 8 anos já lia Shakespeare e, na adolescência uma conferência, cujo tema era o ensaio de Goethe sobre a natureza ficou profundamente impressionado. Trocou a faculdade de Direito pela Medicina e interessou-se pela área de pesquisas. Iniciou seu trabalho sobre o sistema nervoso central, publicou vários artigos sobre cocaína. Especializou-se em doenças nervosas e criou interesse pela "histeria" e pela hipnoterapia praticada na época por Breuer Charcot. Os dois , trabalhando juntos publicaram "Estudos sobre a Histeria" e na mesma época Freud conseguiu analisar um sonho seu que ficou conhecido como "O Sonho da Injeção feita em Irma", rascunhou "Projeto para uma psicologia Científica" somente publicada após sua morte.O termo psicanálise (associação livre) , foi iniciado por ele após passar por um trauma com a morte de seu pai e começou com seu amigo WILHELM FLIESS .
"A Interpretação de Sonhos" que Freud considerava um de seus melhores livros foi publicado para ser projetado no inicio do novo século, XX. Foi bastante hostilizado por seus colegas médicos, trabalhando em total isolamento. Deu inicio a análise de Dora , sua paciente e escreveu Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, " publicando em 1901. Escreveu "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, "Os Chistes e sua relação com o Inconsciente, " "Fragmento da análise de um caso de Histeria"; (neurose) Teve alguns seguidores como Alfred Adler, Carl Jung, que depois separaram-se de Freud e criaram suas próprias escolas, discordando da ênfase que Freud dava à origem sexual da neurose.(nervosismo, irritabilidade, excitação) Durante a Segunda Guerra Mundial Freud foi para a Inglaterra, mas suas irmãs foram assassinadas em campos de concentração. Freud ainda escreveu "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise e há vários volumes da "Coletânea das Obras de Sigmund Freud, que entre outros temas, abrangia a teoria do trauma do nascimento.
Freud é considerado o PAI DA PSICANÁLISE, onde o paciente, vai com ou sem hipnose, lembrando-se de seus traumas, durante a vida e libertando-se de seus sofrimentos e atitudes de irritabilidade, histeria etc....É muito utilizado hoje em dia, por psicólogos e até os novos parapsicólogos, que estão surgindo, usam também em grande escala a hipnose para recordações de vidas anteriores. Freud lutou por muitos anos contra um câncer na boca e morreu por eutanásia ( EUTANÁSIA - SEUS ÚLTIMOS DIAS, por Peter Gay) em 23 de setembro de 1939 com grande influência na cultura do século XX. É de grande importância o estudo de Freud por psicólogos, psicanalistas e parapsicólogos, pelo estudo e entendimento para ajudar os pacientes do nascer e do passado-presente-futuro a fim de se manter e entender os meandros da vida emocional.
Pesquisa: Bibliografia: !A Vida e Obra de Sigmund Freud " por Ernest Jones


As obras de Freud
Estudos sobre a histeria (com Josef Breuer, título original Studien über Hysterie, 1895) recebesse a aclamação.
A interpretaçõo dos sonhos (título original Die Traumdeutung, 1900) para que o psicanalista consiga montar um modelo da estrutura do inconsciente daquela pessoa..
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (Título original Zur Psychopathologie des Alltagslebens, 1901) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (título original Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie, 1905)
Os chistes e a sua relação com o inconsciente (título original Der Witz und seine Beziehung zum Unbewußten, 1905).
Totem e Tabu (título original Totem und Tabu, 1913)
Além do princípio do prazer (título original Jenseits des Lustprinzips, 1920)
O Ego e o Id (título original Das Ich und das Es, 1923)
O mal-estar na civilização (título original Das Unbehagen in der Kultur, 1930)
Moisés e monoteísmo (título original Der Mann Moses und die monotheistische Religion, 1939) Fonte: Instituto Luzes de desenvolvimento humano
Obra resenhada

Para Freud, nenhuma das aplicações da psicanálise excitou tanto interesse e despertou tantas esperanças e atraiu tantos colaboradores capazes, quanto seu emprego na teoria e prática da educação. É fácil compreender por quê, as crianças se tornaram o tema principal da pesquisa psicanalítica e substituindo, os neuróticos com os quais ela iniciou seus estudos. A análise demonstrou como a criança continua a viver, quase inalterada, no doente, lançou luz sobre as forças motivadoras e tendências que estampam seu selo característico sobre a natureza infantil e traçou os estádios através dos quais a criança chega à maturidade. Não é de admirar, portanto, que tenha surgido a expectativa de que o interesse psicanalítico nas crianças beneficiaria o trabalho da educação, cujo objetivo é orientar e assistir as crianças s em seu caminho para diante e protegê-las de se extraviarem.

Segundo o autor, ele menciona que sua cota pessoal na aplicação da psicanálise foi leve. Em um primeiro estádio, diz ele - aceitei o bon mot que estabelece existirem três profissões impossíveis - educar, curar e governar – eu já estava inteiramente ocupado com a segunda delas. Isto, contudo, não significa que desprezo o alto valor social do trabalho realizado por aqueles de meus amigos que se empenham na educação.

O presente volume da autoria de August Aichhorn interessa-se por um setor do grande problema: a influência educacional de delinqüentes juvenis. O autor trabalhou como diretor de instituições municipais para deliquentes, antes de ter-se familiarizado com a psicanálise. Sua atitude para com seus encargos origina-se de uma cálida simpatia com a sorte desses infelizes e foi corretamente guiada por uma percepção intuitiva de suas necessidades mentais. A psicanálise praticamente pouco pôde ensinar-lhe algo que fosse novo, porém lhe trouxe uma clara compreensão interna ( insight ) teórica da justificativa de seu modo de agir e colocou-o em posição de explicar seu fundamento a outras pessoas.

Para o autor, não se deve presumir que esse dom de compreensão intuitiva seja encontrado em todos aqueles que se interessaram pela educação de crianças. Segundo ele, duas lições se pode derivar da experiência e do sucesso de August Aichhorn. Uma é que toda pessoa desse tipo deveria receber uma formação psicanalítica

A segunda lição. Afirma-se no sentido de que o trabalho da educação é algo sui generis: não deve ser confundido com a influência psicanalítica e não pode ser substituído por ela. A psicanálise pode ser convocada pela educação como meio auxiliar de lidar com uma criança, porém não constitui um substituto apropriado para a educação. Tal substituição não só é possível em fundamentos práticos côo também deve ser desaconselhada por razões teóricas.
Não devemos deixar-nos desorientar pela afirmação - incidentalmente uma afirmação perfeitamente verídica - de que a psicanálise de um neurótico adulto é equivalente a uma pós-educação. Uma criança, mesmo uma criança desorientada e delinqüente, ainda não é um neurótico, e a pós-educação é algo inteiramente diferente da educação dos imaturos. A possibilidade de influência analítica repousa em precondições bastante definidas, que podem ser resumidas sob a expressão ‘situação analítica’; ela exige o desenvolvimento de determinadas estruturas psíquicas e de uma atitude específica para com o analista..
O autor encerra com uma inferência, importante não para a teoria da educação, mas para a condição daqueles que estão empenhados na educação. Se um deles aprendeu a análise por experimentá-la em sua própria pessoa, e está em posição de poder empregá-la em casos fronteiriços e mistos, a fim de auxiliá-lo em seu trabalho, obviamente deverá ter o direito de praticar a análise; e não se deve permitir que motivos mesquinhos tentem colocar obstáculos em seu caminho.

Apreciação da resenha

Freud, se refere a três profissões consideradas para ele como impossíveis: governar, educar e curar. Essas profissões representam na teoria freudiana, diferentes maneiras de fazer laço, diferentes maneiras de tentar contornar o impossível.
Petri (2003) nos lembra que o laço é um nó que se desata sem esforço. Temos assim, que os laços sociais que os discursos tentam articular são provisórios, frágeis, incapazes de amarrar todo o real presente. Com efeito, todas essas modalidades de laço carregam em si algo do real, pois sempre haverá uma perda, sempre haverá um mal-estar, sempre haverá um mal-entendido; algo do impossível de ser todo representado. Sendo assim, afirmar que analisar é uma tarefa impossível é partir de uma referência importante: sempre haverá alguma espécie de fracasso nessa forma de laço.
Todavia, a questão do fracasso inerente a toda e qualquer tentativa de produzir enlaçamento, vai adquirir uma posição especial na forma de laço inaugurada pela psicanálise. Freud atribui a dificuldade dessas três missões – educar, curar e governar – obterem êxito pleno ao fato de que, por lidarem com o ser humano, estão vinculadas a forças pulsivas e sócio ‐ culturais, o que torna impossível atingir plenamente os objetivos idealmente desejáveis.

Freud acreditava já naquela época, que a Educação não tem cumprido sua tarefa, causando às crianças graves prejuízos. Mesmo sabendo que o educador tinha necessidade de receber uma formação em Psicanálise. Freud reconhece que "a educação não deve ser confundida com a influência psicanalítica e não pode ser substituída por ela".

Referência Bibliográfica
FREUD, S. Prefácio a "Juventude desorientada" de Aichhom In: SALOMÃO, J. (Edit.) Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro:
Imago, 1976, v.19.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Mitos, Verdades e Tabus sobre a Psicanálise

Quais São as diferenças entre a psicanálise e as psicoterapias?
Até a pouco tempo, essa crença era bastante divulgada, principalmente por parte dos próprios psicanalistas. Na atualidade, essa afirmativa pode ser considerada como sendo um mito. Pela importancia desta questão se justifica fazer uma distinção entre psicanálise, psicoterapia e terapia analítica. Inicialmente, cabe fazer uma matáfora:assim como existem os extremos da claridade do dia e da escuridão da noite, também existem os estados intermediários como são a aurora e o crespúsculo. De forma análoga, pode-se dizer, esquematicamente, que a psicoterapia tem uma finalidade mais restrita, como resolver crises vitais e acidentais; remover sintomas agudos de quadros de transtornos mentais, como angústia, fobia, paranóia, etc., propriciar melhor adaptação na família, sociedade e trabalho; dar apoio com vistas a um melhor enfrentamento de situações difíceis. Habitualmente, as psicoterapias (tanto individual como grupal) são realizadas em uma média de duas sessões semanais, mas nada impede que possa ser uma sessão semanal, quinzenal ou até mesmo mensal. O tempo de duração de uma psicoterapia pode ser breve( por exemplo, a "focal", visa à resolução de um foco específico de sofrimento) ou longa, que perdura enquanto estiverem, de fato, se processando melhoras na qualidade de vida.
Já um tratamento psicanalítico visa a um maior aprofundamento,isto é, vai além dos inequívocos beneficios terapeuticos acima mencionados, sendo que o maior objetivo de uma análise é conseguir mudanças da estrutura inerior do psiquismo.Objetiva, portanto, realizar verdadeiras e permanentes mudanças caracterológicas, de sorte a melhorar a qualidade de vida para uma pessoa que, por exemplo, seja exageradamente obsessiva, ou histérica, fóbica, depressiva, paranóide, psicossomatizadora,etc. Isso,na hipótese de que essa caracterologia, embora sem sintomas manifestos, de alguma forma possa estar prejudicando a si próprio e/ ou aos demais, com sensíveis prejuízos e inibições nas capacidades afetivas, intelectivas, comunicativas, criativas e de lazer. Um tratamento psicanalítico habitualmente é processado com quatro (ou três) sessões semanais, comumente(mas não obrigatoriamente) com o paciente deitado no divã, e tem uma duração de vários anos, dependendo do paciente.
O termo terapia analítica( ou psicoterapia de orientação psicanalítica) designa aquele tratamento em que há certa superação de psicoterapia e pasicanálise e cujo denominador comum consiste na utilização do "método análitico" que, fundamentalmente, consiste em um conjunto de conhecimentos teóricos e procedimentos técnicos que possibilitam um acesso ao incosciente do paciente.
Voltando a metáfora do dia e noite, vale repisar que os autores e professores estabeleciam um enorme abismo entre psicoterapia e psicanálise. Na atualidade, entretante, as zonas de aurora e crepúsculo servem de analogia para o significado de que passou a existir uma redução de diferenças, e uma superposição de semelhanças entre ambas está se expandindo de forma significantiva.David E. Zimerman